Era fevereiro de 1988, véspera do Carnaval. Tinha ido sozinho para Bahia. O primeiro destino foi o santuário ecológico de Abrolhos (um arquipélago que fica a 90Km da custa sul da Bahia).
Comprei uma excursão para Abrolhos no "Gabriela", a escuna do Rubens e a Gal, proprietários de uma pousada em Caravelas onde fiquei hospedado. O trajeto até o arquipélago demorou 6 horas e pernoitamos duas noites naquele paraiso. Mergulhei muito, de dia, de noite, curti toda aquela natureza subaquática e acabei fazendo amizade com os outros passageiros, pois no pacote você não pode sair da escuna. (o acesso às ilhas é proibido, somente é permitido a militares e biólogos.)
Dentre os passageiros tinha um casal carioca (de Niterói) de aprox. 30 a 35 anos. Infelizmente não lembro o nome deles. Ele mergulhava muito bem e era o que mais conversava com todos, descia até mais de 10 metros, se gabava de fazer caça submarina e ficava bravo por não estar permitido fazer isso em Abrolhos. Eu o achei meio fanfarrão, aquele que sempre sabe tudo e conhece tudo, embora ele era divertido. A mulher dele era muito legal e simpática.
Tinha também um japonés, chamado Dario Tadashi, de idade próxima à minha (25), morava em São Paulo e estudava na USP. Ele era gente fina e fizemos bastante amizade visto que ele também estava viajando sozinho.
No caminho de volta a Caravelas cada um comentou qual seria o próximo destino e coincidentemente o casal carioca, Dario e eu íamos para Arraial D’ajuda. O casal gentilmente nos ofereceu carona e nós aceitamos na hora!
Eram 14:00 hs quando saímos de Caravelas e a previsão de chagada a Arraial D’ajuda era por volta das 17:30 hs. Dario e eu sentamos nos bancos de trás de uma Paraty novinha. O dono, feliz com carro novo, corria a 140Km/h numa estrada em estado bastante precário (BR 101 em 1988, imaginem...). A esposa começou a pedir para ele ir mais devagar, pois não havia motivo para correr, estavam de férias e sem hora para chegar lá. Já tínhamos andado mais de 150Km. Eu como mochileiro que era naquela época estava adorando a carona com ar condicionado e fazia planos com o Dario do que íamos fazer logo mais ao chegar.
De repente sentimos um estrondo horrível que deixou a todos assustados. Apareceu um caminhão no sentido contrário de onde jogaram uma jaca que acabou batendo de frente no capô do carro. Paramos, saímos do carro e vimos o capô todo amassado, saindo fumaça e monte de pedaços de jaca espalhadas no parte dianteira, ao lado dos faróis e no radiador. O dono do carro ficou furioso e disse que “ia matar o quem fez isso”. Mandou todos entrarem no carro e pegou a estrada no sentido contrário até alcançar o caminhão. Apesar dos pedidos da esposa para esquecer o caminhão, ele consegui ultrapassá-lo e fechá-lo numa manobra brusca que o obrigou a parar.
Saímos todos do carro novamente, ele aproximou-se da cabine do motorista do caminhão pedindo satisfação do ocorrido, mas o motorista disse que não sabia de jaca nenhuma, que não entendia porque estava sendo parado dessa forma e abordado com tanta fúria.
O dono do carro não quis saber da conversa do motorista e o obrigou a abrir a caçamba, dizendo “você pode não saber, mas com certeza o fdp que está aqui dentro sabe muito bem o que fez”. A mulher pediu para ele ficar mais tranqüilo, Dario e eu ficamos apreensivos, pois ele parecia disposto a brigar feio, dizendo até que “ia matar o responsável”. O motorista do caminhão percebeu que o negócio era sério e começou a abrir a caçamba com parcimônia.
Grande foi a nossa surpresa quando todos os que estavam lá eram crianças bóias-frias entre 10 e 13 anos, todas olhando com cara de “coitado de mim, eu não fiz nada”. Foi ai que nós quatro ficamos atônitos, a esposa disse para ele “você não vai querer matar nenhuma destas crianças, né?”, e ele mantendo a sua fúria acenou para o motorista e disse “então você, você é o responsável, você sim, você vai ter que pagar o conserto do meu carro.”
O motorista, perplexo da situação, disse a ele que não se sentia responsável, que mesmo sendo o único adulto, era um trabalhador, que tinha nove filhos e que apenas tinha para comer, que como ia fazer para pagar um conserto de um carro tão caro, e que na verdade se havia um responsável era o patrão dele, o dono de uma fazenda próxima de Teixeira de Freitas (100 Km para atrás!).
Imediatamente nosso amigo dono do carro disse “vamos falar com esse fazendeiro!, ele tem que pagar por isto”. Foi ai que eu disse ao Dario para pegarmos outra carona, pois a viagem ia ficar muito cansativa, somado o cansaço que já tínhamos do mergulho. Dario ficou bravo comigo e me disse “nós vamos acompanhar o carioca até ele resolver tudo, ele está sendo muito bacana consco e agora que está em dificuldades não podemos abandoná-lo”. Eu optei por concordar com o Dario e entrar no carro, sentido Teixeira de Freitas, só que atrás do caminhão, ou seja, a 60km/h.
Chegamos à fazenda após uma hora e meia de viagem (eu pensava... a esta hora poderíamos estar bebendo uma no Arraial D’ajuda...).
Não tinha muita gente, pois era o final de semana que começava o carnaval. Fomos atendidos por um empregado que ficou de procurar pelo patrão. Enquanto isso, todas as crianças bóias frias desceram correndo do caminhão e o motorista pediu licença para ir embora, pois tinha hora para chegar em casa. O nosso amigo dono do carro disse taxativamente “não!, você não sai daqui até alguém decente me atender!”. A situação ficou tensa até que apareceu uma pessoa melhor vestida que era o encarregado da fazenda, que ofereceu café para todos e pediu para esperar, avisando que patrão já estava vindo.
Depois de aguardar um pouco nos fizeram entrar em uma sala grande e bem decorada. Estava lá sentado um senhor de camisa e porte grande, com um chapéu imenso. Ele atendeu de forma muito educada e pediu para contar tudo o que aconteceu. Enquanto isso, o motorista do caminhão esperava lá fora ansiosamente. Depois do carioca relatar a história (já mais calmo) o fazendeiro disse a ele para ficar tranqüilo que o conserto do carro ia ser pago pelo seguro. O nosso amigo, por coincidência, trabalhava como corretor de seguros... pulou da cadeira e tornou a ficar irritado: ele disse “Seguro, porra nenhuma meu senhor!, já viu seguro contra jaca?” A esposa pediu novamente a ele para ficar calmo, mas não adiantou. O fazendeiro disse para ele prosseguir sua viagem, aproveitar as férias, que ele “ia cuidar de tudo”, e pediu para que esperássemos um pouco lá fora que tinha que fazer alguns acertos com o motorista do caminhão.
Eles ficaram conversando um tempão, ficamos esperando sem saber o que estava acontecendo. De repente, cansados de esperar, entramos novamente na sala e vimos que não havia ninguém. O motorista tinha ido embora para sua casa e o fazendeiro sumiu da sala. A esposa pediu ao carioca encarecidamente para esquecer dessa fazenda e seguir viagem, mas ele começou a berrar e pedir que apareça alguém. Não vinha ninguém... Dario e eu olhávamos um a outro sem saber o que dizer. Já era de noite.
De repente apareceu uma mulher muito elegante segurando umas pastas “Muito prazer! Eu sou a Dra. Fulana de Tal, advogada do dono da fazenda”. Eu disse “nossa! Agora ficou pior!”. Entramos todos na sala, ela disse para o cara ficar calmo que ele ia ser ressarcido e ele respondeu que não queria conversa, que o seguro não resolvia nada, etc”. ela disse que o primeiro que ele devia fazer era o BO e já que ia na cidade, tentasse fazer um orçamento do conserto em alguma oficina mecânica aberta.
Fomos todos pra cidade, fazer tudo isso, e tivemos ainda que passar na casa do motorista para pegar o RG dele, num bairro distante (eu pensava.... que lindo passeio... esta cidade é uma bosta...). Ao voltar já eram 8 ou 9 da noite. Felizmente o fazendeiro estava lá, esperando por nós. A esposa do carioca disse “Viu, você vai ser ressarcido, fique tranqüilo, tudo vai dar certo”. Retornamos à fazenda... Com o orçamento na mão.
Sentado na sua cadeira, o fazendeiro olhou para cima, fez umas contas, pegou o calculador e finalmente disse “meu amigo, isso aqui é muito dinheiro, eu vou lhe dar dois cheques, um para agora e outro para 30 dias.”.
Foi ai que me arrependi enormemente de ter aberto a boca. Eu pedi licença e sussurrei ao carioca “Cuidado que o cheque pode ser sem fundo!”. Ele, dando ouvidos a meu conselho, disse “não quero nenhum cheque do Sr., eu quero dinheiro vivo”. A mulher do carioca queria me matar, o Darío ria e o carioca me de um tapinha nas costas agradecendo a dica. Voltamos a estaca zero de novo. O fazendeiro argumentava que não tinha dinheiro...
Ficou um impasse por mais uma hora naquela fazenda sem graça...
Depois de muita insistência por parte de todos o fazendeiro “arranjou” o 70% do valor em dinheiro e o carioca achou que valia a pena pegar e ir embora.
Fomos todos embora da fazenda, muito cansados, mas com o conforto da missão cumprida e pegamos novamente a estrada retomando a nossa viagem de férias. Como havíamos passado uma tarde estressante, ninguém se importava que no velocímetro a agulha marcasse 140/150 até 160. A esposa dormia, apesar de que quando acordava pedia para ele ir mais devagar, sem muito sucesso.
A estrada estava bem escura e tinha muitos buracos, que às vezes eram crateras, e para piorar, começou a chover, uma chuva muito forte. Ele foi obrigado a ir mais devagar, mesmo assim não ia menos do que a 120km/h. Darío e eu cochilávamos. De repente sentimos um barulho forte, diferente da jaca, mas tão assustador quanto. O carro pegou um buraco muito grande e arrebentou dois pneus (o dianteiro e o traseiro direito).
Descemos todos do carro debaixo da chuva e não podíamos acreditar no que víamos: A Paraty nova com capô amassado e agora com dois pneus furados, debaixo da chuva no meio da escuridão total da noite.
Resolvemos fazer carona e felizmente não demorou muito tempo em parar um caminhão. O carioca sugeriu que a esposa pegasse a carona junto com o Dario, enquanto ele e eu ficávamos tomando conta do carro, até eles voltarem com ajuda. Trocamos um dos dois pneus furados e entramos os dois dentro do carro, debaixo da chuva sem saber quanto tempo eles demorariam em voltar.
De repente o carioca, num surto de paranóia, sai do carro, abre o porta-malas e pega o arpão que ele usava para fazer caça submarina, entra no carro, tranca todas as portas e passa o arpão para mim, pedindo-me para ficar atento a qualquer aproximação de uma pessoa suspeita. Eu disse que no meio daquela noite e com toda essa chuva não tinha uma alma que podia aproximar-se do carro, mas ele insistiu para eu ficar de plantão.
Haviam passado umas duas horas quando chegou um carro da polícia, com a esposa e o Dario trazendo um pneu adicional, que era o próprio estepe do carro da polícia, uma Saveiro daqueles que não existem mais. Felizmente o pneu serviu para a Paraty, entramos todos no carro e fomos até o borracheiro mais próximo, que consertou os pneus e por fim chegamos à Arraial D’ajuda por volta das 2:00 hs da manhã, já sem chuva.
Demoramos 12hs!.
domingo, 14 de setembro de 2008
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